Peru, Bolívia e Chile, com paragem em Toronto - Roteiro (parte 2 -Bolívia)


Como descrevi no artigo anterior (aqui), os primeiros 11 dias deste roteiro foram passados no Peru (e nos ares da América do Sul!).
A ideia original era mesmo visitar o Peru, só que... estávamos tão perto da Bolívia... Posso dizer que aconteceu um "Já que estou aqui" que conto no artigo "Escolha de destinos para viajar" (aqui). Além disso, como disse na minha apresentação (aqui), sou professora de Biologia e Geologia e toda a vida falei e mostrei aos meus alunos duas coisas da Bolívia: o salar e a árvore de pedra. Como podia eu estar tão perto e não as ir ver?
As amigas não conheciam nenhuma destas coisas, mas o meu entusiasmo era tanto que não tiveram coragem de negar a minha pretensão. Mais uma vez devem ter pensado «lá vamos nós ver uns calhaus...». E foram... e adoraram!

No Peru, o itinerário  foi:
Lima - Paracas - Nazca - Arequipa - Puno - Cusco - Machu Picchu - Cusco

Ao 12.º dia voámos para La Paz. É neste dia que começa este artigo.
Todos os pressupostos (preparação da viagem, escolha de alojamento...) de que falei no artigo sobre o itinerário no Peru, se mantiveram também na Bolívia.

Vamos então ao roteiro.

DIA 12
Cusco - La Paz
Ainda era de noite quando nos levantámos e ainda não eram 08.00h da manhã já estávamos no avião com destino a La Paz, onde chegámos por volta das 10.00h.
Até aqui todas as idas e vindas para e dos aeroportos tinham sido feitas de táxi, chamado na altura, mas para sair do aeroporto de La Paz pensámos noutra coisa.
Tínhamos lido que La Paz é um grande bairro de lata (é quase isso sim, pelo menos algumas partes da cidade) e que tinha um trânsito caótico. Além disso, teríamos pouco tempo e, como sempre, queríamos ver muita coisa. Ir ao hotel deixar as malas seria perder tempo. Então, contratámos uma agência (Servimaster Tours) que nos fosse buscar ao aeroporto, nos levasse aos principais locais da cidade de táxi (andar de teleférico, rua dos museus, miradouro Quilli Quilli) e arredores (Vale da Lua) e no final nos deixasse no hotel. E assim foi. Quando chegámos ao aeroporto, lá estava um senhor à nossa espera. Este foi o único dia que não almoçámos sentadas.
Às quatro da tarde, estávamos no hotel, que aqui foi o Residencial Latino. Depois descemos até ao centro da cidade, visitámos a catedral e perdermo-nos pelo mercado das bruxas. Este foi também o único dia que não jantámos num restaurante local (comemos num restaurante de fast food), já explicarei porquê.

Apreciação do dia:
A contratação do passeio com partida do aeroporto foi uma boa opção. Teríamos conseguido ir a todos os locais por conta própria (até ao Vale da Lua que fica nos arredores da cidade) e com menor custo, mas teríamos perdido muito tempo. Os museus são pequenos e por isso vêem-se rápido. Contactámos a agência por mail, de modo a fazer o passeio à nossa medida. Não incluímos a catedral nem a Praça Murillo porque seria fácil e rápido chegarmos lá por nossa conta, já que o hotel não era longe. Vale muito a pena ir ao vale da Lua. A formação geológica não é muito grande mas é bastante invulgar (pelo menos eu não conheço nada com esta grandiosidade) e vale a pena guardar umas duas horas para a apreciar (nós não estivemos lá tanto tempo).
Não conseguimos jantar num restaurante local porque nenhum aceitava cartão de crédito e o dinheiro  trocado no aeroporto tinha sido gasto em "recuerdos"... (fica a dica!).
Em relação ao hotel, o único ponto negativo foi o pequeno almoço. Demasiado pobre. Mas claro, nós somos três "tugas", duas delas alentejanas (e eu que sou quase) e não nos enrascámos (no último artigo desta série ficarão a saber porquê).

FOTOS DO DIA
O teleférico foi a forma encontrada para facilitar as deslocações na cidade de La Paz mas também um ponto turístico

No miradouro de Quilli Quilli estava a decorrer a gravação de um vídeo clip... será que ficámos nele?

Chegámos ao Vale da Lua e o que estava a acontecer? a gravação de um vídeo clip... isto persegue-nos!

Vale da Lua

Vale da Lua

Praça Murilllo - La Paz

DIA 13
La Paz - Uyuni
Às 8.30h saímos do hotel para visitar as ruínas de Tiahuanaco, um dos centros arqueológicos mais importantes da Bolívia, localizado a 72 km de La Paz. Comprámos o passeio, também pela Internet,  na agência kanoo tours. Levámos as malas, de modo a que na volta nos deixassem num sítio relativamente próximo do aeroporto, onde pudéssemos apanhar um táxi e deste modo evitar retornar ao hotel. Esta foi a única agência que se atrasou a ir buscar-nos o suficiente (uma meia hora) para pensarmos que se tinham esquecido de nós (o trânsito na cidade não é fácil!). Mas, tirando isso, correu tudo conforme o combinado e por volta das 17.00h estávamos no aeroporto, a tempo de apanharmos o voo das 19.00h para Uyuni, onde chegámos por volta das 20.00h.
Já de noite, demos uma volta pela terra (Uyuni, a paorta de entrada para o Salar), vimos onde era a agência que tínhamos contratado para nos levar ao Salar de Uyuni e jantámos. Para esta noite, o alojamento foi o Hostal Castillo de Liliana.

Apreciação do dia:
Gostei de visitar Tiahuanaco e não fiquei com pena de não estar mais tempo em La Paz. Com certeza que tem mais para ver do que aquilo que vimos mas não sei se conseguiria desvanecer a ideia de grande favela com que fiquei da cidade. Chegou o tempo que tivemos.
Agora um à parte: Viajo de avião desde 1992 e conheço dezenas de aeroportos de quatro continentes, mas em Uyuni, um aeroporto mínimo e num voo interno, foi a única vez até hoje que assinei um documento comprovativo do levantamento da bagagem de porão. Se este fosse o procedimento corrente, provavelmente teríamos conseguido um papel que comprovasse que a mala da minha amiga não tinha sido levantada, o que infelizmente não conseguimos.
O "Castelo da Liliana" (alojamento em Uyuni) é muito fraco. Mau mesmo. Não recomendo.

FOTOS DO DIA
Na Bolívia (e também no Peru, embora em menor quantidade, as casas são assim. Não acabando as casas, pagam menos impostos.

Tiahuanaco

Tiahuanaco

Tiahuanaco

Uyuni

DIA 14
Uyuni - Algures no Salar de Uyuni
Pouco passava das 08.30h quando fomos fazer o check in e o pagamento na agência (Red Planet Expedition) que tínhamos contratado pela Internet para nos levar ao Salar. Optámos por uma viagem de três dias e duas noites no Salar, com transfer até Atacama, de modo a não voltar para trás.
A saída estava prevista para as 10.30h e portanto tivemos tempo de fazer as necessárias compras para a aventura (papel higiénico, água, bolachas...) e de mais uns "recuerdos" (um deles foi para o lixo há dias. Era um íman de frigorífico feito de sal e gesso que começou a desfazer-se). Fiquei com a ideia que Uyuni vive à conta do salar com o seu nome.
Coforme o previsto, por volta das 10.30h estávamos a entrar no jipe que além das nossas malas, levava tudo o que seria necessário (comida, água, sacos-cama, gasóleo, pneu suplente...) para provir as necessidades dos ocupantes do carro: condutor/guia, nós as três e mais três jovens alemãs. Estas jovens seriam as nossas companheiras de viagem e de dormida. Connosco seguiam outros jipes da mesma companhia.
A primeira paragem, para umas fotos, foi no cemitério de comboios, ainda perto de Uyuni. Depois parámos num povoado para almoçar e ver o empacotamento de sal. Mais tarde fizemos uma paragem num hotel abandonado, onde fica o monumento em homenagem ao Rally Dakar e a partir daí o espanto das minhas amigas (e meu, já agora...) era notório. "Isto é mesmo espetacular!" e "Nunca vi nada igual!" saía-lhes da boca a cada 30 segundos. Fomos a uma das "ilhas" do salar, tirámos fotografias, vimos o pôr do sol. Tudo fantástico!
Já era noite quando chegámos ao abrigo para pernoitar. Coisa simples, com apenas uma casa de banho, quarto partilhado com as colegas de jipe. Ainda assim aceitável. Os sacos-cama que tínhamos requisitado não foram precisos, pudemos tomar banho de água quente, havia luz elétrica até nos deitarmos (de gerador) e o jantar foi agradável.

Apreciação do dia:
A travessia do salar não se faz por conta própria (não há transportes públicos) e quando preparámos a viagem, uma das maiores dificuldades que tivemos foi precisamente na escolha da agência para esta travessia. Para todas as agências havia relatos negativos. Lemos dezenas de relatos sobre esta viagem e sobre as agências. Alguns descreviam coisas assustadoras: jipes que avariavam no meio do caminho e que os condutores não tinham forma de comunicar com ninguém; condutores que conduziam bêbados e que dormiam ao volante; abrigos sem luz e com condições deploráveis. Posto isto, eliminámos as agências com maior número de relatos negativos e, mesmo sabendo que ao maior preço não corresponde sempre a maior qualidade, optámos pela agência mais cara.
Não sei como teria sido com outra agência, mas neste primeiro dia tudo correu bem e a dormida, como já disse, foi razoável. Claro que há formas de viajar mais agradáveis do que enfiadas num jipe com desconhecidos e ainda por cima a falarem alemão, mas o guia era simpático e falava connosco em espanhol e paisagem era maravilhosa. Estava a correr tudo bem.

FOTOS DO DIA
Cemitério de comboios

Empacotamento de sal. Vê-se o nosso guia/condutor.

Salar de Uyuni, único ponto natural brilhante que pode ser visto do Espaço. Serviu de guia aos astronautas da Apollo 11. 

"Ilha" Wasy, no Salar de Uyuni

A rocha que piso é de recife coral. 

Salar de Uyuni (não imaginam o tamanho destes cactos).

Salar de Uyuni. A inclinação que parece haver é aselhice da fotógrafa. O Salar de Uyuni é dos lugares mais planos do mundo. Tão plano que até utilizado pela NASA para calibrar aparelhagem.

Salar de Uyuni. Na época das chuvas, este grande deserto fica coberto por uma fina camada de água que espelha o céu, o que é outro espetáculo fantástico.

Salar de Uyuni

DIA 15
Algures no Salar de Uyuni - Algures no Salar de Uyuni
Ainda não tinha amanhecido quando nos levantámos. Tomámos o pequeno-almoço e continuámos. A paisagem continuava deslumbrante. Almoçámos comida que ia no jipe e a pouco e pouco a grande planície de sal foi ficando para trás. Agora o que nos deslumbrava eram as lagoas andinas vermelhas  com os seus flamingos, os vulcões e claro... a Árvore de Pedra. Lá estava ela à minha espera! O meu entusiasmo (emoção de lágrima no olho) era evidente, mesmo para as alemãs e para o guia. Tive de explicar quem eu era e o que fazia e dizer que conhecia aquela pedra desde os meus 12 anos! Depois disto, as fumarolas e nascentes termais a que ouvi chamar de gueisers não passavam de buracos com lama a borbulhar!
A noite aproximava-se e chegámos ao segundo abrigo. Aqui as coisas eram diferentes! É certo que tínhamos uma nascente de água termal quentinha mesmo ao pé da porta e que até tivemos direito a uma garrafa de vinho. No prospecto parece idílico: tomar banho numa nascente termal sob as estrelas, no deserto, enquanto se bebe um copo de vinho tinto. Parece, não parece?
Agora a realidade: um frio de rachar e uma casa tipo bairro da lata, onde a fraca luz se apagou logo que acabámos de jantar. Uma casa de banho no exterior sem banho nem água quente. Um tanque de água termal com um banheiro muito precário para mudar de roupa. Enquanto se está dentro de água, está-se bem mas cá fora, o frio corta.
Tomei banho nas águas termais, pois claro, mas dormi vestida dentro do saco-cama.
Para completar o cenário... as alemãs roubaram-me o papel higiénico... quer dizer... eu deixei-o na casa de banho e elas devem ter pensado que não era de ninguém....

Apreciação do dia:
A paisagem é realmente deslumbrante e vale muito a pena ir ao Salar de Uyuni mas atenção, tenham noção que as condições são muito precárias e, pelo menos pelo que vi, não há melhor. Quando escolherem a agência, tomem em atenção se disponibiliza sacos-cama (não pagámos mais por eles).

FOTOS DO DIA
(Não liguem à hora marcada nas fotos, as máquinas estavam um "pouco" baralhadas)
Estivemos perto de vulcões e alguns com atividade evidente.

A cor vermelha dos lagos é dada por microalgas. O branco é bórax (borato de sódio). Vimos lamas, guanacos, mas este parece-me que é uma vicunha.

O branco junto ao lago é bórax mas o que está mais ao longe é gelo com uma forma muito especial...

E aqui está finalmente a Árvore de Pedra!

Até as amigas se entusiasmaram e fotografaram a "pedra" de todos os lados.

Flamingos, flamingos, flamingos.

Vulcões e lagos, numa conjugação espantosa

E outra vez flamingos.

E paisagens que parecem pinturas!

E campos de fumarolas e de nascentes termais

Agora o banho nas águas termais a quase 40 ºC

DIA 16
Algures no Salar de Uyuni - São Pedro de Atacama
Apesar de tudo, dormimos bem. Depois de 15 dias de viagem, já é difícil não dormir bem.
As alemãs estavam a fazer-se esquecidas em relação à lanterna que lhes tinha emprestado na noite anterior... até a tinham guardado na mochila. O papel higiénico dei de barato mas a lanterna já era demais! (agora calhava mesmo bem uma piada sobre alemães...).
Vimos o sol nascer e continuámos viagem. Neste troço continuámos a ver lagoas de todas as cores e vulcões. Ao fim da manhã deixaram-nos no autocarro que nos levaria a São Pedro de Atacama (Chile), onde chegámos à hora de almoço e iríamos descansar o resto da tarde... será? (descubram no próximo artigo). As companheira alemãs voltaram para Uyuni, onde deverão ter chegado à noite.

Apreciação desta parte do dia:
A opção de fazemos o Salar em dois dias e meio e daí ir para Atacama revelou-se boa. Passar mais tempo no salar, naquelas condições seria penoso; ter feito um passeio de apenas um dia impediria de ver tudo aquilo que vimos; ter voltado para trás seria  perder tempo e aumentar o cansaço. A viagem de volta a Uyuni é feita de seguida e imagino que seja muito cansativa.

FOTOS DESTA PARTE DO DIA
E um nascer do Sol...


Ao longo da viagem vimos estes campos de gelo esculpido pelo vento. Maravilhoso!

E esfregámos os olhos muitas vezes para ter a certeza que a paisagem era real. Percebemos nesta altura por que se chama este deserto de Dali!

Estava na hora de dizer adeus à Bolívia!


Nenhuma fotografia que possa partilhar faz jus à beleza da paisagem. A imensidão da planície de sal, o contraste dos vários tons de castanho e vermelho das rochas e da água com o branco do gelo faz parecer que olhamos uma pintura. Não dá para descrever. Desejo muito que a minha memória não esqueça o que vi!


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Continua...

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